
A terceira edição do estudo "How People Are Really Using AI" da Harvard Business Review chegou, agora com 12.637 casos...
A terceira edição do estudo da Harvard Business Review chegou. E confirmou, em escala, quase tudo o que apontamos na nossa crítica de 2025. Inclusive aquilo que a própria HBR só foi nomear agora.
Em abril de 2025, dissecamos o estudo de Marc Zao-Sanders na HBR e fizemos três apostas críticas. A edição de 2026, agora assinada também por Sara Biuk, acaba de ser publicada. Esta análise mostra, ponto a ponto, o que se confirmou, o que mudou e o que ainda ninguém quer enfrentar de frente.
A série "AI in the Wild" chega à terceira edição com um salto de escala. Foram 12.637 casos de uso reais, extraídos de quase 50.000 registros coletados entre março de 2025 e fevereiro de 2026, em Reddit, Quora, LinkedIn, TikTok, YouTube e artigos públicos. Para efeito de comparação, o método é o mesmo de antes, escutar como as pessoas descrevem, com as próprias palavras, o que fazem com IA. O que mudou foi o volume e a profundidade da amostra.
Os números de pano de fundo dão a dimensão do fenômeno: o ChatGPT chegou a 900 milhões de usuários semanais e o Gemini ultrapassou 750 milhões de usuários mensais. É adoção em ritmo de smartphone, alcançada em pouco mais de três anos e meio. A pergunta que o estudo persegue não é mais "a IA vai chegar", e sim "para que, afinal, as pessoas a estão usando".
Em 2025, nossa crítica metodológica foi direta: o artigo não dizia quantas postagens foram analisadas, nem quem eram esses usuários. Perguntamos, textualmente, se eram "5.000 ou 50.000". A edição de 2026 responde com transparência bem-vinda: 12.637 casos de uso, de quase 50.000 registros, em uma janela de 12 meses claramente delimitada. Isso é avanço real, e merece reconhecimento.
Mas o problema estrutural que apontamos não desapareceu, apenas ficou maior. As fontes continuam sendo plataformas anglófonas de autoexpressão digital. Quem escreve no Reddit sobre IA é, por definição, alguém confiante o bastante para opinar em público. O sócio de um escritório de médio porte em Campinas, o advogado trabalhista em Fortaleza, a equipe paralegal que usa IA com medo de errar e sem contar para ninguém, esses não aparecem na base. O silêncio da maioria ansiosa continua invisível.
O ranking de 2026 é um retrato fiel do profissional digital de língua inglesa com acesso a ferramentas de ponta. Ele é uma referência, não um espelho do escritório brasileiro. Tratar o ranking como mapa de adoção local é o primeiro erro de diagnóstico.
Este é o ponto onde a correlação entre os dois artigos fica mais nítida. Em 2025, propusemos reimaginar a IA como "espelho reflexivo", "provocador socrático" e "parceiro filosófico de debate", em vez de tratá-la como oráculo que entrega respostas prontas. O argumento era que a IA que valida passivamente degrada o pensamento, e a IA que confronta o aprimora.
A edição de 2026 deu nome ao perigo que descrevemos: thinkslop, o pensamento preguiçoso e descuidado que o uso excessivo de IA produz. Em pelo menos um quarto dos principais casos de uso, as pessoas estão pedindo que a IA pense por elas. E o estudo expõe o mecanismo perverso por trás disso: a ferramenta é desenhada para manter o usuário engajado, o que significa elogiar em vez de confrontar.
A IA é um espelho, não um gênio. Use-a como tal.
Colaborador citado no estudo da HBR, 2026, o mesmo conceito que propusemos em 2025Para o escritório de advocacia, isso tem uma face específica e grave, o thinkslop jurídico. O associado que usa IA para redigir uma petição e entrega o rascunho sem revisão crítica está delegando julgamento técnico a um sistema que não tem inscrição na OAB, não responde a processo disciplinar e não tem dever de diligência. O resultado é qualidade aparente, texto fluente e bem estruturado, com qualidade oculta degradada, argumentação rasa, jurisprudência ausente ou inventada, e equívocos processuais que só aparecem na intimação.
Um escritório pede à IA: "redija a contestação". A IA entrega três páginas convincentes. O sócio, satisfeito com a fluência, revisa por cima. Esse é o thinkslop em estado puro. O antídoto é inverter o prompt: "aponte as três fraquezas mais graves desta tese e o contra-argumento que o juiz mais provavelmente acolherá". A diferença entre os dois usos não está na ferramenta, está em como o profissional foi treinado para segurá-la.
Em 2025, alertamos que o uso da IA como terapeuta e companheiro era apresentado como inequivocamente positivo, ignorando os riscos de alucinação em contextos emocionais, as limitações de janela de contexto nos planos gratuitos e a chance real de adiar intervenção profissional. Foi a seção mais densa da nossa crítica.
A edição de 2026 confirma a tendência e, desta vez, com mais coragem para reconhecer o problema. O uso mais comum de toda a tecnologia não é codificar nem analisar dados, é suporte emocional. Terapia e companheirismo somam mais de 1.400 entradas e 11% de tudo o que foi observado, ante 5% no ano anterior. O estudo, desta vez, ouve um especialista de saúde mental do King's College London, que aponta o óbvio incômodo: diante de filas de espera e dificuldade de acesso a atendimento, não surpreende que tanta gente recorra à IA.
O reconhecimento de 2026 é real, mas para no diagnóstico. Falta o próximo passo, a responsabilidade das plataformas e o papel do regulador. No Brasil, onde o Conselho Federal de Psicologia já se manifestou sobre limites do uso de IA em atendimento psicológico, esse silêncio normativo é mais do que uma omissão acadêmica, é um vazio prático.
A frase mais importante do artigo de 2026 está cravada no meio do texto e contraria todo o discurso de mercado: no mundo dos negócios, há muita atividade produzindo benefícios marginais, e não transformadores, pelo menos até agora. O único retorno financeiro documentado com clareza em todo o estudo é uma única agência de marketing, que relata aumento de 20 a 30% em conversão com campanhas de e-mail personalizadas por IA. Os próprios autores chamam esse tipo de número de raro nos dados.
Traduzindo para a realidade dos escritórios: a maioria dos advogados que diz "usar IA" está no nível mais baixo da pirâmide de valor, eficiência operacional. Primeiros rascunhos, resumos de reuniões longas, explicação de cálculos em linguagem simples. Útil, real, mas longe de transformação. A pirâmide do estudo é larga na base e estreitíssima no topo.
Desde 2012 sustentamos que IA em escritório de advocacia precisa ser tratada como projeto de gestão, não como adoção individual de ferramenta. O estudo de 2026 prova o ponto sem querer: adoção solta, de baixo para cima, gera thinkslop no indivíduo e margem incremental na organização. Transformação exige estrutura, governança e mudança de rotina. Ferramenta sem projeto é teatro.
Há um achado em 2026 que tocamos de leve em 2025 e que merece destaque total agora, o uso sombra. O estudo descreve, como prática comum, profissionais usando IA em segredo. Um deles resume: fecho tickets duas vezes mais rápido, minhas entregas têm menos erros, fui elogiado na última avaliação, mas ninguém sabe que estou usando IA. Outro relata ter construído um agente para fazer metade do próprio trabalho, em sigilo, depois que a gestão rejeitou a ideia, e usado o tempo livre em um negócio paralelo.
Para o escritório de advocacia, esse é um risco operacional subestimado e tem três camadas:
A reação intuitiva do sócio conservador é proibir. O estudo mostra exatamente por que isso falha: a proibição não elimina o uso, empurra para a sombra, onde o risco fica sem gestão. Política permissiva e bem delimitada traz o uso para a luz, onde ele pode ser apoiado, auditado e ensinado.
| Tema | Nossa crítica · 2025 | Estudo HBR · 2026 |
|---|---|---|
| Tamanho da amostra | Apontamos a ausência de números e o risco de viés de seleção. | Passa a declarar 12.637 casos. A escala melhora, o viés de fonte permanece. |
| IA validando passivamente | Propusemos "espelho reflexivo" e "provocador socrático". | Batiza o problema de thinkslop e prescreve o uso como parceiro de debate. |
| Terapia e companheirismo | Alertamos para alucinação, contexto e adiamento de ajuda profissional. | Confirma como uso número um, sobe de 5% para 11%, e ouve um especialista. |
| Riscos em contexto jurídico | Mostramos o perigo no caso "contestar uma multa", sem supervisão. | Reconhece o gap entre fluência aparente e qualidade real do output. |
| Transformação de negócio | Questionamos o tecno-otimismo e a falta de evidência de impacto. | Admite benefícios marginais e ROI documentado raro. |
| Estrutura de avaliação | Propusemos o "Prisma da IA", utilidade, agência e impacto coletivo. | Chega a uma pirâmide de ambição, menos crítica que o prisma. |
A diferença que ainda nos separa do estudo é uma só: o "Prisma da IA" que propusemos avalia a qualidade do uso, enquanto a pirâmide de 2026 avalia apenas o nível de ambição. São métricas distintas, e a primeira é mais útil para a decisão concreta de um sócio diante da própria banca.
Tanto o estudo de 2026 quanto a nossa crítica de 2025 param onde o trabalho de verdade começa, o que fazer na prática. O artigo entrega recomendações genéricas, a crítica entrega reimaginações conceituais. Ambos acertam o diagnóstico e nenhum entrega a prescrição operacionalizada. É exatamente essa a lacuna que o método de gestão preenche.
Construa o caso de uso sobre tempo economizado e clareza ganha, não sobre transformação. É o ganho que as pessoas de fato relatam, e é honesto.
Ensine a equipe a pedir que a IA encontre falhas, não que confirme acertos. Rascunhar por último, não por primeiro. É a defesa prática contra o thinkslop.
Audite por que a equipe esconde o uso e remova os incentivos ao sigilo. Política clara e sem punição transforma uso oculto em aprendizado coletivo.
Defina papéis, métricas e rotina. IA medida por eficiência, qualidade jurídica e qualidade de vida deixa de ser ferramenta solta e vira capacidade da banca.
O estudo da HBR confirma em escala global o que sustentamos há mais de uma década. IA que não é tratada como projeto de gestão produz pensamento preguiçoso no indivíduo e margens incrementais na organização. A transformação real exige estrutura, não apenas acesso à ferramenta.
André Medeiros · Advoco BrasilA apuração de 2026 não é a que a maioria das estratégias de IA foi escrita para enfrentar. A adoção é enorme, mas conduzida pelas pessoas, não pela liderança. O uso de maior valor costuma estar escondido. E a transformação segue sendo uma promessa, paga quase só às bancas pequenas e ágeis o suficiente para cobrá-la. Quem vai bem daqui para a frente não é quem nega essa realidade, é quem decide governá-la.
Consultor de gestão para escritórios de advocacia, criador do IAThon e autor de "AdvocacIA ou Obsolescência". Desde 2012 ajudando o mercado jurídico a evoluir, porque a mudança é essencial.
Advocacia: um fardo ou uma arte? Se a exaustão e a repetição dominam seu cotidiano, não aceite um “novo normal”. Não oferecemos meros atalhos para a mesma corrida, mas uma ruptura.
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André Medeiros é especialista em gestão para escritórios de advocacia e entusiasta da Inteligência Artificial no Direito e Legal Design. Acompanhe suas análises e insights sobre o futuro da advocacia.

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