O júnior que você não contratar este ano — Advoco Brasil
Advoco Brasil · Gestão Jurídica

O júnior que você não contratar este ano

A decisão de não repor a vaga leva quatro minutos na reunião de sócios. É o item mais rápido da pauta, e é o que define quem vai ser sócio do escritório daqui a uma década.

Sucessão Estrutura de equipe Alavancagem Liderança 0 min de leitura
Ninguém decide não ter sucessor. As pessoas apenas decidem, várias vezes, não abrir a vaga.
Este texto não é sobre tecnologia. É sobre um comportamento de sócio que ficou muito mais barato de praticar nos últimos dois anos, que não gera atrito nenhum na reunião, que aparece como economia no fechamento do exercício, e cuja fatura chega numa gestão que talvez não seja a sua.

A reunião de quatro minutos

Um advogado júnior pede demissão em março. Na reunião de sócios seguinte, alguém levanta o item da reposição.

O primeiro sócio observa que a equipe absorveu bem o volume nas últimas semanas. O segundo lembra que a ferramenta nova está dando conta da triagem e da primeira minuta. O terceiro comenta que o momento pede cautela com custo fixo.

A vaga não é fechada. Ela apenas deixa de ser aberta. Não há votação, não há divergência, não há registro em ata. O item consome quatro minutos e a pauta segue.

Vale dizer com clareza: nenhuma dessas três falas está errada. A equipe absorveu mesmo. A ferramenta faz mesmo. O custo fixo é mesmo o item mais perigoso do orçamento de um escritório de advocacia.

O problema não está no que foi decidido. Está no horizonte em que foi decidido. Três pessoas competentes olharam para o próximo trimestre e responderam com precisão a uma pergunta trimestral. Só que a pergunta que estava em cima da mesa era de outra natureza, e ninguém a formulou em voz alta.

Uma decisão de produtividade e uma decisão de sucessão foram votadas juntas, no mesmo item, no mesmo minuto, com a informação de apenas uma das duas.

A assimetria que faz todo mundo concordar

Concordância unânime e rápida quase nunca significa que o assunto é simples. Costuma significar que só um lado da conta está visível na sala.

Do lado do ganho: é imediato, é mensurável, aparece no fechamento do mês, e tem dono. Alguém pode apresentar aquele número numa reunião e ser reconhecido por ele.

Do lado do custo: é distante, é difuso, não aparece em relatório nenhum, e não tem dono. Não existe, no painel de indicadores de praticamente nenhum escritório brasileiro, uma linha chamada capacidade de formar advogados seniores.

O que não é medido não é defendido. E o que não tem dono não tem defensor na hora da decisão.

O incentivo real

O sócio que não repõe a vaga é reconhecido no fechamento deste ano. O sócio que vai sentir a falta dela talvez nem esteja na sociedade quando a conta chegar. Não é má-fé. É estrutura de incentivo funcionando exatamente como foi desenhada.

Há ainda um agravante cultural na advocacia. O sócio médio brasileiro foi formado tecnicamente e nunca foi formado em gestão de pessoas. Ele aprendeu a avaliar risco processual com sofisticação e aprendeu a avaliar risco de estrutura no improviso. Diante de dois riscos, ele escolhe com naturalidade o que sabe medir.

Aritmética da esteira

A pirâmide de um escritório não é uma foto. É um fluxo. Ela só se sustenta porque, todo ano, entra gente na base, e uma fração dessa gente atravessa a esteira inteira.

Isso significa que a quantidade de sócios disponíveis daqui a uma década não depende de quantos advogados o escritório tem hoje. Depende de quantos entraram nos anos anteriores e de quantos permaneceram.

A relação
Sucessores = Entradas × Permanência × Tempo
Zerar qualquer um dos três fatores zera o resultado inteiro

O exercício abaixo usa premissas de uma banca modelo. Não é pesquisa de mercado, é aritmética a partir de números declarados. Substitua cada premissa pelos números reais do seu escritório antes de tirar qualquer conclusão.

Premissas do exercício: escritório contrata seis juniores por ano; a esteira até a autonomia plena leva cerca de oito anos; a porta de entrada fica fechada por três anos.

6
Entradas por ano na premissa
3
Anos com a porta fechada
18
Entradas que deixam de existir
3
Anos sem candidato interno, uma década depois

O detalhe importante não é o número final. É a defasagem. A decisão é tomada no ano 1 e a consequência se manifesta no ano 9, quando quem decidiu já não está mais discutindo aquele item.

Horizonte O que aparece no resultado O que acontece na estrutura Quem percebe
Ano 1 Economia visível de custo fixo Um degrau da base deixa de existir Todos os sócios
Ano 3 Margem preservada, equipe enxuta Pleno acumula tarefas de duas camadas Coordenação e pleno
Ano 6 Dificuldade de delegar aparece como falta de tempo dos sócios Camada intermediária rarefeita Sócio operacional
Ano 9 Custo alto de contratar sênior pronto no mercado Nenhum candidato interno a sócio na fila Sociedade inteira

Aqui o ajuste é silencioso

Em mercados com vínculo mais flexível, um ajuste de estrutura aparece como demissão. Aparece em número, gera notícia, gera debate interno, gera reação.

No Brasil, o cálculo é outro. Desligar custa dinheiro, exige conversa difícil, expõe o escritório a risco de reclamação trabalhista e obriga alguém a assumir a decisão publicamente. Não contratar não custa nada, não exige conversa, não gera passivo e não tem autor identificável.

Some a isso o formato de vínculo predominante na advocacia, com contrato de associação, correspondente autônomo e prestador pessoa jurídica. O efeito de uma retração de estrutura simplesmente não aparece como desemprego em lugar nenhum. Aparece como menos volume distribuído, menos pessoas na sala e uma sensação difusa de que o mercado esfriou.

Ajuste por demissão
Custo imediato e mensurável
Exige decisão formal e responsável
Gera discussão na sociedade
Fica registrado e é revisitado
Ajuste por porta fechada
Custo zero no curto prazo
Não exige decisão formal
Não gera discussão nenhuma
Nunca é revisitado, porque nunca foi registrado
Demitir é caro. Não contratar é de graça. É exatamente por isso que o ajuste da advocacia brasileira vai ser silencioso, e o que é silencioso não entra em pauta.

O repetitivo não era só produção

Existe um segundo efeito, mais silencioso ainda, e que quase não aparece nas conversas sobre estrutura.

A formação de um advogado nunca aconteceu principalmente em curso. Aconteceu dentro do trabalho repetitivo. Ler duzentos contratos é o que permite reconhecer, no contrato duzentos e um, que aquela cláusula está fora do lugar. Redigir cinquenta contestações padronizadas é o que constrói o instinto de perceber, na quinquagésima primeira, que o caso não é padrão.

Esse trabalho sempre teve duas funções simultâneas. Ele entregava produção para o cliente e entregava repertório para quem o executava. O escritório pagava por um e recebia os dois.

O trabalho repetitivo não era só produção. Era currículo. Retirar o repetitivo sem substituir a formação retira as duas coisas, e só uma delas aparece na planilha.

Isso muda a natureza do problema. Não se trata apenas de haver menos vagas de entrada. Trata-se de que as vagas remanescentes formam menos, porque o percurso que produzia repertório encolheu.

É por isso que a resposta correta não é preservar tarefa obsoleta para treinar gente. Isso seria ineficiência disfarçada de pedagogia, e o cliente não deveria pagar por ela. A resposta é redesenhar o que o júnior faz, de modo que o repertório continue sendo construído por outro caminho: revisão crítica do que a máquina produziu, contato mais cedo com o cliente, exposição a decisão em vez de exposição a volume.

Isso dá trabalho de gestão. Não abrir a vaga não dá trabalho nenhum. E é aí que a maioria dos escritórios vai escolher.

As objeções que aparecem nessa conversa

Em boa parte, sim, e negar isso seria desonesto. O ponto é outro: aquele trabalho tinha uma segunda função, que era formar quem o executava. A ferramenta entrega a produção e não entrega a formação. Se você substituir apenas a produção e não recolocar a formação em outro lugar, você não fez uma troca equivalente.

Essa é uma estratégia legítima, desde que seja assumida como estratégia. Ela tem três implicações que precisam ser ditas em voz alta na reunião: custo de aquisição mais alto, dependência de disponibilidade externa e sócio formado em outra cultura. O erro não é escolher esse caminho. O erro é acabar nele sem nunca ter escolhido.

Rotatividade alta é um dado real na advocacia, e ela realmente reduz o retorno da formação. Mas repare no que essa objeção faz com a decisão: ela transforma a permanência em algo que acontece com o escritório, e não em algo que o escritório gerencia. Antes de usar a rotatividade como argumento para não contratar, vale medir por que as pessoas saem. Na maioria das bancas, esse número nunca foi apurado.

Correto, e nenhum escritório deveria. Só que essa frase resolve a pergunta financeira e deixa a pergunta estrutural intacta. As duas precisam ser respondidas separadamente, com informações diferentes, e hoje elas costumam ser respondidas juntas, no mesmo item de pauta, com apenas a informação financeira sobre a mesa.

Cinco movimentos que não custam orçamento

Nada do que vem abaixo pede que você contrate mais gente. Todos pedem que a decisão seja tomada com o horizonte correto e com um responsável identificado.

Checklist para a reunião de sócios
0 de 5 concluídos
Separar a decisão de produtividade da decisão de formação. São duas contas com horizontes diferentes e hoje elas são votadas no mesmo item.
Colocar um número na sua esteira. Quantos anos separam a entrada de um júnior da autonomia plena neste escritório, com esta prática e estes clientes.
Registrar em ata toda vez que uma vaga deixar de ser aberta. O que não é registrado nunca é revisto.
Redesenhar o que o júnior faz, em vez de decidir apenas se ele existe. Revisão crítica, contato com cliente e exposição a decisão no lugar de exposição a volume.
Nomear um sócio responsável pela formação. Enquanto esse custo não tiver dono, ele não terá defensor na hora da votação.
Critério de decisão

Não é possível saber hoje qual será o tamanho certo da base daqui a cinco anos. Mas a assimetria é conhecida: manter a porta aberta por tempo demais custa margem e é corrigível a qualquer momento. Fechar a porta e descobrir tarde demais não é corrigível em prazo útil. Diante de incerteza, o erro reversível é o erro preferível.

Quem vai ser sócio aqui em 2035

Leve essa pergunta exatamente nesses termos para a próxima reunião e observe a reação da sala.

Se a resposta vier em nomes, o escritório está sendo conduzido. Se a resposta for que a sociedade pretende contratar prontos no mercado, também está tudo certo, desde que isso seja uma escolha declarada, com orçamento e consequência assumidos.

Se não houver resposta, ela já está sendo dada. Quatro minutos por vez, em itens de pauta que ninguém contesta, por pessoas competentes respondendo com precisão a uma pergunta que não era a que estava na mesa.

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A Advoco Brasil trabalha estrutura de equipe, alavancagem e sucessão em escritórios de advocacia desde 2012.

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Criadora do IAThon (730+ advogados formados, 28 turmas) e do livro AdvocacIA ou Obsolescência.
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Artigo produzido por André Medeiros e Advoco Brasil com suporte de IA.

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244
Respondentes
49/100
Score médio
14%
Maturidade alta

Distribuição de maturidade

30% crítica
57% em desenvolvimento
14% alta

Pilar mais maduro e mais frágil

Mais maduro
58/100
Gestão do Dinheiro
Mais frágil
43/100
Gestão de Gente
Respostas confidenciais, conformidade LGPD
Gratuito

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