O problema que ninguém fala em voz alta

Advogados usam IA para redigir peças. Isso não é segredo. O problema não é usar: é entregar o rascunho sem revisar o suficiente. O resultado chega ao juiz, ao cliente ou à parte contrária com marcadores que qualquer leitor atento identifica: frases que inflacionam a importância do caso sem dizer nada concreto, atribuições a "a doutrina" sem citar qual, conclusões que não formulam pedido.

Esses padrões não são apenas esteticamente ruins. Eles enfraquecem o argumento. Uma afirmação genérica ocupa o espaço que deveria conter a norma aplicável, o número do acórdão, o fato específico que sustenta a tese. O juiz lê. O arbitrador lê. O cliente lê. A contraparte lê.

A linha que importa

Usar IA para redigir é lícito e cada vez mais comum. Entregar texto com marcadores de IA sem revisão crítica é um problema de qualidade, e, em alguns contextos, de responsabilidade profissional.

Como o padrão artificial enfraquece o argumento

1
Espaço ocupado sem conteúdo. "Reveste-se de suma importância para o deslinde do feito" ocupa uma linha que poderia conter o artigo de lei aplicável.
2
Argumento sem âncora. "Conforme a doutrina majoritária" sem citar qual doutrina é atribuição vaga: fragiliza a tese em vez de sustentá-la.
3
Pedido diluído. Conclusões genéricas ("confia-se na prestação jurisdicional") não substituem pedidos expressos com base normativa.
A peça não parece artificial porque é longa. Parece artificial porque é imprecisa.

Os 11 padrões e como corrigi-los

Cada card traz três camadas. Use as setas ou deslize para navegar.

Padrão
Exemplo com IA
Correção

Diagnóstico por tipo de documento

PadrãoPeça processualParecerContratoComunicação
Inflação de significânciaFrequenteFrequenteRaroModerado
Atribuição vagaFrequenteFrequenteRaroModerado
Estrutura telegráficaFrequenteModeradoRaroRaro
Prolixidade não-funcionalFrequenteFrequenteModeradoModerado
Vocabulário de IAFrequenteFrequenteModeradoFrequente
Paralelo forçadoModeradoModeradoRaroModerado
Negativismo paraleloModeradoModeradoRaroModerado
Conclusão genéricaFrequenteModeradoRaroModerado
Qualificativos automáticosFrequenteRaroRaroRaro
Definição desnecessáriaFrequenteModeradoRaroRaro
Citação decorativaFrequenteFrequenteRaroRaro

Como aplicar a revisão

Regra dos dois parágrafos

Leia o primeiro e o último parágrafo de cada seção. Se ambos poderiam ter sido escritos sobre qualquer processo de qualquer área, o texto tem marcadores de IA. Reescreva com o fato específico, o artigo concreto, o pedido expresso.

Quatro perguntas, aplicadas parágrafo a parágrafo:

1. Qual a função deste parágrafo? Narrar fato, afirmar tese, citar norma ou formular pedido. Sem resposta, o parágrafo é enchimento: elimine.

2. A atribuição é específica? "A doutrina" vira "Pontes de Miranda, Tratado de Direito Privado, t. III, p. 12". "A jurisprudência" vira "STJ, REsp 1.658.046/SP". Sem fonte, retire a afirmação ou reformule como argumento próprio.

3. O argumento tem âncora normativa ou fática? Toda tese precisa de base: artigo de lei, precedente ou fato provado. Frases como "resta evidente que" sem sustentação são marcadores diretos de IA.

4. O pedido é expresso e específico? "Requer-se a condenação ao pagamento de R$ X, com base no art. Y" é pedido. "Aguarda-se provimento jurisdicional justo" não é.

O que não alterar

Terminologia técnica com sentido jurídico preciso deve ser preservada: constitui, configura, enseja, incide, aufere, perfaz, aduz, consubstancia, colacionar, fumus boni iuris, periculum in mora. A revisão remove imprecisão, não substitui vocabulário necessário por simplicidade forçada.

Fechamento

Peças geradas por IA tendem para o estatisticamente provável, não para o argumentativamente preciso. O resultado é texto que soa jurídico sem ser juridicamente robusto: frases que preenchem sem fundamentar, conclusões que encerram sem decidir.

Próximo passo

Pegue a última peça que você revisou antes de assinar. Leia com as quatro perguntas acima. Quantos parágrafos sobreviveriam à pergunta "qual a função deste parágrafo?"