A Precificação Jurídica Como Ato Político

Precificação jurídica: quando o problema é a estrutura que não enxergamos

Uma análise sênior sobre por que advogados brasileiros cobram menos do que vale e o que ninguém fala sobre isso

Existe uma narrativa conveniente que diz: "Advogados têm dificuldade em precificar". Como se fosse um traço de personalidade. Uma fraqueza caracterial. A verdade é mais incômoda e muito mais interessante.

A advocacia brasileira não sofre de uma incapacidadeFalta de competência ou habilidade para executar uma tarefa específica de precificar. Sofre de uma desestruturação sistemáticaAusência de bases sólidas que permitam funcionamento adequado e inteligente que torna a precificação um ato de risco emocional e profissional.

A raiz disso não é falta de competência.

É a junção de três fatores estruturais que ninguém muda sozinho. Que afetam desde o estudante de Direito até o sócio de um grande escritório.

1

Formação empresarial deficiente

A faculdade de Direito não forma empresários. Forma técnicos em legislação. Você aprende a argumentar em tribunal, a citar jurisprudência, a estruturar peças processuais. Ninguém nunca te ensinou que precificação é ato estratégico de negócio. Precificação é poder. Quem controla o preço, controla a narrativa.

2

Pressão do mercado por commoditização

Plataformas de consultoria jurídica, redes nacionais e leilões eletrônicos criaram uma cultura de "cotação". O cliente coleta três preços. Fica com o menor. Isso força o advogado a se defender pelo preço em vez de se diferenciar pelo valor. A consequência: o serviço jurídico virou mercadoria.

3

Ausência de ferramentas inteligentes

Sem dados estruturados sobre custos reais, tempo gasto, rentabilidade por tipo de serviço, o advogado precifica com intuição. Medo. Improviso. Uma ferramenta inteligente traduz esforço em preço. Transforma insegurança em confiança. Permite argumentação baseada em impacto, não em custos.

O que ninguém fala: a dimensão invisível do problema

Quando você lê sobre "dificuldade de precificação em advocacia", normalmente descrevem sintomas. Não a doença. Falam que advogado tem medo de perder cliente. Que não sabe calcular custos. Que confunde hora com valor. Tudo verdade. Mas incompleto.

Falta a pergunta mais incômoda: quem lucra com a subvalorização da advocacia?

A resposta é: quem compra. Clientes corporativos que conseguem contratos mais baratos. Plataformas que cobram porcentagem em cima de propostas baixas. Concorrentes que usam preço como arma de guerra. O sistema de justiça que se beneficia de advogados cansados, estressados, com margens mínimas — portanto, menos questionadores.

Uma verdade desconfortável

A profissão jurídica brasileira foi estruturada historicamente com um viés: o de que advocacia é vocação, não negócio. "Apostolado da justiça". Essa narrativa é poderosa. É também muito conveniente para quem não quer pagar caro por serviços jurídicos. Ela cria uma cultura onde cobrar bem é visto quase como ganância. Onde refusar um caso por não ter preço adequado parece falta de compromisso social.

A consequência: gerações de advogados internalizaram que devem trabalhar mais, cobrar menos e se sentir realizados com isso. Não é acidente. É design. Design de um sistema que beneficia a demanda (clientes) em detrimento da oferta (advogados).

Como isso se manifesta na prática: três retratos brasileiros

O problema não é homogêneo. Cada segmento sofre de forma diferente, mas todas as três soluções apontam para o mesmo lugar: empoderamento através da inteligência de dados e argumentação baseada em valor.

O autônomo: preso no ciclo da urgência financeira

O dilema: O advogado autônomo não tem margem de manobra psicológica. Precisa do próximo cliente. Precisa da próxima receita. Quando um cliente questiona o valor de R$ 5.000, o autônomo não consegue dizer não. Ele diz sim a R$ 3.000. E trabalha como se tivesse dito sim aos R$ 5.000 — porque a necessidade não muda.

O ponto cego: O autônomo não enxerga que cada aceitação de preço baixo o encareceu para o futuro. Porque estabeleceu referência. Porque treinou o cliente (e a si mesmo) a pensar que "aquele tipo de trabalho custa isto". Quando tenta subir preço depois, encontra resistência — porque mudou as expectativas.

Manifestações concretas:

  • Recebe cliente pedindo orçamento para ação trabalhista. Pensa: "Vou cobrar R$ 3.000". Cliente diz: "Mas fulano cobra R$ 1.800". Autônomo cede. Ganha R$ 1.800 por 30 horas de trabalho: R$ 60 por hora. Menos que garçom. Menos que técnico em TI sem especialização.
  • Sem controle financeiro, não sabe quanto realmente custa manter seu consultório aberto. Sem isso, coloca preço "no feeling". Resultado: margens inconsistentes, às vezes positivas, frequentemente negativas.
  • Não consegue argumentar por que o trabalho vale o preço. Respostas técnicas ("Vou fazer pesquisa jurisprudencial profunda") não impressionam cliente. Cliente quer saber impacto: "Como isso vai me beneficiar?".

O ponto de virada: Quando o autônomo começa a usar dados (histórico de seus próprios casos, tempo gasto, complexidade) e argumentação de impacto ("Este parecer reduz seu risco legal em 95%; se não fizermos, você se expõe a R$ 500 mil em passivos"), muda a dinâmica. Não está mais defendendo um número. Está mostrando valor.

O escritório pequeno: o preço como sintoma de desorganização

O dilema: Escritório com 5 advogados. Um sócio cobra R$ 5.000 por ação trabalhista. Outro cobra R$ 3.500 pelo mesmo serviço. Clientes que conversam entre si percebem. Internamente, ninguém consegue explicar por que existe essa diferença. A justificativa é pessoal: "Aquele sócio trabalha diferente". Profissionalismo: zero.

O ponto cego: Escritórios pequenos não percebem que heterogeneidade de preço é sinal de falta de maturidade. Clientes interpretam isso como inconsistência. Falta de critério. Desconfiança. "Se cobram preços diferentes pelo mesmo serviço, como sei que não estou sendo enganado?". Essa suspeita destrói margem.

Manifestações concretas:

  • Sem dashboard de rentabilidade, o escritório não sabe quais serviços são realmente lucrativos. Uma linha de atuação que "parece" rentável consome 150% do tempo estimado. Outra "parece" menos lucrativa, mas tem altíssimo retorno. Sem dados, decisões são palpite.
  • Quando a Tabela OAB muda (como em 2025), o escritório leva semanas/meses para ajustar internamente. Nesse interim, está cobrando abaixo de seus próprios critérios. Deixa dinheiro na mesa.
  • Clientes corporativos exigem propostas detalhadas. O escritório não tem processo estruturado. Fica na mão do sócio que "faz de cabeça" — e às vezes erra feio.

O ponto de virada: Quando todos os sócios usam a mesma metodologia de precificação, os preços convergem. Não são idênticos (porque cada sócio pode ter expertise diferente), mas seguem fórmula clara. Quando isso acontece, a conversa passa a ser sobre diferencial técnico, não sobre desconfiança de preço.

O escritório estruturado: sofisticação que oculta ineficiência

O dilema: Grandes escritórios têm sistemas. Têm processos. Têm controle de horas. Parecem sofisticados. Mas cobram tabela fixa. Um parecer sobre tema simples custa o mesmo que um parecer sobre tema inédito. Não há captura de valor adicional. Não há ajuste de complexidade.

O ponto cego: Sofisticação de sistema não se traduz em sofisticação de negócio se a métrica de precificação continua sendo tabela ou hora vezes valor. O escritório grande está deixando margens enormes na mesa porque não consegue capturar ágio de complexidade e risco.

Manifestações concretas:

  • Um caso envolve risco reputacional altíssimo, resultado de R$ 100 milhões, jurisprudência inovadora. Deveria gerar R$ 70.000 de honorário. É precificado como R$ 25.000 porque usam apenas "estimativa de horas vezes valor/hora".
  • Overhead do escritório grande consome mais margem do que imaginam. Sem alocação inteligente, todo projeto arca com custo fixo igual. Resultado: projetos de pouco risco (commodity) sugam rentabilidade de projetos de muito risco (complexo).
  • Juniors não entendem lógica de formação de preço. Propõem sempre "tabela" ou "abaixo da tabela" porque não sabem argumentar com base em impacto. Crescem na profissão sem nunca aprender que precificação é poder.

O ponto de virada: Quando o escritório grande começa a segmentar precificação por perfil de risco (commodity, padrão, inovador, alto risco) e cada um tem múltiplo de valor diferente, as margens decolam. Não porque está cobrando mais. Porque está cobrando diferente. Inteligentemente.

Reflexões que abalam premissas

O cliente não paga pela sua hora. Paga pelo resultado. Um parecer que economiza R$ 100 milhões vale infinitamente mais do que um parecer que economiza R$ 100.000, ainda que ambos demandem exatamente 10 horas de trabalho.

Quando você cede no preço para "não perder o cliente", o que está realmente cedendo é o direito de crescer. Estabelece referência. Treina o cliente (e a si mesmo) a pensar que aquele tipo de trabalho custa aquilo.

A formação jurídica brasileira estrutura advogados como técnicos, não como empresários. A consequência é que você aprendeu a argumentar em tribunal, mas não a negociar com base em valor. São habilidades diferentes. Ninguém te ensinou a segunda.

Precificação inteligente não é sobre ganância. É sobre sustentabilidade. É sobre conseguir dedicar tempo de qualidade aos clientes. É sobre ter margem para investir em expertise. É sobre respeito profissional.

A narrativa de que "advocacia é vocação, não negócio" é poderosa e foi historicamente conveniente para quem não quer pagar caro por serviços jurídicos. Você internalizou essa narrativa. Precisa desaprendê-la.

O advogado que melhor precificar seus serviços não será o que mais cresce em volume. Será o que mais cresce em impacto. Porque terá margem para fazer menos, melhor. Porque atrairá clientes que valorizam resultado, não preço.

O custo invisível: quanto dinheiro fica na mesa

Estimativa de receita deixada na mesa em cada hora negociada due a precificação inadequada. Não é pessimismo. É diagnóstico.

Segmento R$ Deixado / Hora
Advogado Autônomo R$ 45
Escritório Pequeno (3-10 advogados) R$ 52
Escritório Estruturado (50+ advogados) R$ 38
Custo Médio (Sem Ferramenta) R$ 45

A saída: transformação através da inteligência

Se o problema é estrutural, a solução também é. Não é sobre trabalhar mais duro. Não é sobre ser mais agressivo. É sobre ser mais inteligente.

Quando você consegue traduzir esforço em dados. Quando consegue usar esses dados para argumentar com base em impacto. Quando consegue estruturar propostas que mostram valor de forma clara. Quando consegue diferenciar casos simples de casos complexos e cobrar diferente. Quando consegue justificar cada valor com clareza. Aí muda tudo.

Não é ganância. É profissionalismo.

A profissão jurídica brasileira que melhor precificar seus serviços será a que mais cresce. A que mais atrai talento. A que mais impacta seus clientes. Porque conseguirá dedicar tempo de qualidade. Investir em expertise. Entregar resultados reais. Crescer com margem, não apenas com volume.

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