Maturidade em IA na contabilidade: o que 121 profissionais revelaram sobre o próprio trabalho
Maturidade em IA é o grau em que uma equipe incorporou inteligência artificial às tarefas que ocupam o seu dia, medido pelo uso efetivo e não pela ferramenta contratada. Em 17 de setembro de 2026, 121 contadores, auditores e profissionais de controladoria responderam a um questionário de 11 questões antes de uma aula da Imersão Contábil 2026. O resultado desmonta a suposição mais comum sobre adoção de IA.
Advoco BrasilAndré Medeiros, sócio-fundador17 de setembro de 2026N = 121 respostas
Como a pesquisa foi feita
O questionário reuniu 11 questões fechadas em escala de 0 a 10 e uma questão aberta, respondidas por adesão voluntária no início da aula. A coleta foi anônima: nenhum campo pedia nome, CPF, e-mail ou qualquer identificador. Os 121 respondentes atuam em contabilidade, auditoria e controladoria.
Um limite precisa ficar claro antes de qualquer número. A amostra é a turma que estava naquela sala, autosselecionada em um evento de formação. Ela descreve esse grupo e não representa a população de contadores do Brasil. Nenhuma leitura a seguir pode ser generalizada para fora dele.
121respostas completas, coletadas entre 13h43 e 13h54
11questões fechadas em escala de 0 a 10
1questão aberta sobre tarefas operacionais
Q1 a Q5as cinco frentes cuja média simples forma o índice de adoção
As 11 questões se organizam em três blocos. Uso de IA reúne Q1 a Q5: revisão de documentos, pesquisa de normas e leis, geração de documentos, uso de IA para resolver tarefas baratas que consomem horas caras, e atendimento ao cliente. Postura reúne Q6 confiança na precisão da IA, Q7 busca de soluções inovadoras e Q11 percepção de que a IA é passageira. Dor reúne Q8 exaustão das tarefas, Q9 impacto da sobrecarga na qualidade de vida e Q10 proporção de tempo em tarefas operacionais.
A dor pontua mais alto que o uso
Três das quatro maiores médias do questionário medem dor, não uso de IA. Sobrecarga na qualidade de vida lidera com 7,83, seguida por pesquisa de normas e leis com 7,81, tempo em tarefas operacionais com 7,60 e exaustão das tarefas com 7,43. A frente menos madura é atendimento ao cliente, com 4,55.
As quatro maiores médias do questionário. Três delas medem dor, e a única frente de uso que aparece no topo é pesquisa de normas e leis. Média aritmética por questão, escala de 0 a 10, N = 121.
61,2% dos respondentes marcaram 7 ou mais, ao mesmo tempo, em exaustão das tarefas, sobrecarga na qualidade de vida e tempo em tarefas operacionais. São 74 pessoas de 121. Nenhuma das três questões de dor recebeu uma única resposta zero.
A leitura por questão confirma a concentração. Em sobrecarga (Q9), 80,2% marcaram 7 ou mais. Em tempo operacional (Q10), também 80,2%. Em exaustão (Q8), 76,0%. A dor não é um recorte da turma, é o estado padrão dela.
Estatísticas descritivas das 11 questões, N = 121, escala de 0 a 10.
Questão
Média
Mediana
Desvio
% de 7 a 10
Q9 Sobrecarga na qualidade de vida
7,83
8,0
1,85
80,2%
Q2 Pesquisa de normas e leis
7,81
9,0
2,62
75,2%
Q10 Tempo em tarefas operacionais
7,60
8,0
1,87
80,2%
Q8 Exaustão das tarefas
7,43
8,0
1,92
76,0%
Q6 Confiança na precisão da IA
6,33
7,0
2,12
54,5%
Q7 Busca de soluções inovadoras
6,29
7,0
2,89
55,4%
Q1 Revisão de documentos
6,08
7,0
3,35
57,9%
Q3 Geração de documentos
6,01
7,0
3,34
50,4%
Q4 Tarefa barata por hora cara
6,00
7,0
3,38
56,2%
Q11 IA é modinha
5,83
9,0
4,53
52,9%
Q5 Atendimento ao cliente
4,55
5,0
3,69
37,2%
Onde a IA já entrou e onde ela parou
A IA entrou pela pesquisa e parou no atendimento. Pesquisa de normas e leis chega a 7,81, enquanto atendimento ao cliente fica em 4,55. São 3,26 pontos de distância entre a frente mais madura e a menos madura, e 33 pessoas marcaram zero em atendimento.
A média sozinha engana. Quando a distribuição é aberta por faixa, aparecem duas turmas diferentes dentro da mesma sala.
Em pesquisa, 91 respondentes estão na faixa de 7 a 10. Em atendimento ao cliente, a turma se parte: 55 pessoas na faixa de 0 a 3 e 45 na faixa de 7 a 10. A média de 4,55 não descreve nenhum dos dois grupos. Faixas de 0 a 3, 4 a 6 e 7 a 10, N = 121 por questão.
Os cinco estágios de maturidade em IA
O índice de adoção é a média simples das cinco frentes de uso, Q1 a Q5, na escala de 0 a 10. Na turma, esse índice tem média 6,09 e mediana 6,60, com mínimo 0,0 e máximo 10,0. Cortado em cinco faixas, ele separa a sala em estágios com comportamentos distintos.
Os dois estágios mais altos somam 51 pessoas, 42,1% da turma. O estágio Aplicado concentra a maior fatia isolada, com 32 pessoas. Comprimento da barra proporcional ao número de respondentes, N = 121.
Perfil médio por estágio de adoção. Médias por grupo, escala de 0 a 10.
Estágio
n
Q6 confiança
Q7 inovação
Q8 exaustão
Q9 sobrecarga
Q10 operacional
Latente, índice de 0 a 3,00
21
4,62
3,57
6,33
7,05
7,52
Exploratório, de 3,01 a 5,00
17
5,71
5,06
7,12
7,65
7,35
Aplicado, de 5,01 a 7,00
32
6,53
6,38
7,69
8,03
7,59
Integrado, de 7,01 a 8,50
30
7,23
7,70
7,93
8,03
7,80
Estratégico, de 8,51 a 10,00
21
6,95
7,86
7,67
8,19
7,57
A tabela guarda o achado mais desconfortável do levantamento. Do estágio mais baixo ao mais alto, a sobrecarga varia apenas 1,14 ponto e o tempo operacional varia 0,45 ponto. Busca de inovação, no mesmo intervalo, varia 4,29 pontos e confiança na IA varia 2,61 pontos. O que muda entre os estágios é postura, não carga de trabalho.
O que puxa a adoção de IA
A adoção de IA anda junto com postura e quase não anda com volume de trabalho. A correlação entre o índice de adoção e a busca de soluções inovadoras é de +0,567. Com confiança na precisão da IA, +0,467. Com tempo em tarefas operacionais, apenas +0,053.
Busca de inovação e confiança na IA puxam a adoção. Tempo operacional e sobrecarga, as duas dores mais citadas, praticamente não puxam. Correlação de Pearson, N = 121. Associação, não causalidade: os números não dizem qual variável causa a outra.
A consequência prática é direta. Colocar mais volume operacional na mesa de alguém não faz essa pessoa adotar IA. Em uma equipe contábil, isso significa que o argumento "você está afogado, use IA" tem pouca tração isolado. O que acompanha a adoção é a disposição de tentar caminho não convencional e a confiança calibrada no resultado da ferramenta.
Por que usar mais IA não reduziu a sobrecarga
Nesta turma, usar mais IA não veio acompanhado de menos sobrecarga. A correlação entre índice de adoção e sobrecarga na qualidade de vida é de +0,232, positiva. Quarenta e dois respondentes combinam dor alta, nota 8 ou mais em Q9, com uso alto de IA, índice 7 ou mais.
Cada ponto é um respondente. Vinte pessoas estão no canto crítico, com dor alta e uso baixo. Outras 42 estão com dor alta apesar do uso alto. Se a IA estivesse aliviando a carga, a nuvem do lado direito estaria mais baixa. N = 121, escala de 0 a 10 nos dois eixos.
Há pelo menos duas explicações compatíveis com esses dados, e o levantamento não permite escolher entre elas. A primeira: o tempo economizado está sendo reabsorvido por mais trabalho, não convertido em folga. A segunda: quem já estava mais sobrecarregado buscou IA primeiro, o que inverte a direção da leitura. Descobrir qual das duas vale exige medir antes e depois na mesma equipe, e não uma foto única.
Onde o tempo operacional vai
A questão aberta pedia exemplos das tarefas operacionais que consomem mais tempo. As respostas geraram 160 menções, classificadas em 11 categorias. Conferência e revisão de documentos aparece em 32 delas, o equivalente a 26,4% dos respondentes.
Conferência de documentos, comunicação e relatórios respondem por 74 das 160 menções. São tarefas de verificação e redação, exatamente a faixa em que a IA já mostra ganho previsível. Classificação multirrótulo: uma resposta pode contar em mais de uma categoria, por isso o total de menções excede o número de respondentes.
As respostas literais dizem o que a tabela resume. Transcritas sem edição de texto ou ortografia:
"Hoje o que ocupa a maior parte do meu tempo é revisão dos trabalhos executados pela equipe devido a grande rotatividade de colaboradores"
Resposta 01
"Preenchimento de planilhas, extração manual de dados de documentos físicos digitalizados, elaboração de apresentações, redação de documentos baseados em reuniões (súmulas/atas)"
Resposta 02
"Olhar documentos, clicar como verificado, elaborar e-mail resposta, etc."
"Impressão e classificação de documentos. Arquivos físicos"
Resposta 05
"Hoje eu não faço mais tarefas operacionais"
Resposta 06
A questão que não tem leitura única
A questão 11 perguntava se a IA é uma modinha que vai passar. A distribuição saiu bimodal: 60 pessoas marcaram 10 e 34 marcaram 0. A correlação com o índice de adoção é de +0,111, praticamente nula, e 31 respondentes com índice de adoção 7 ou mais marcaram 8 ou mais nessa questão.
A distribuição se concentra nos dois extremos. Quem respondeu de 8 a 10 tem índice de adoção médio de 6,45, acima de quem respondeu de 0 a 2, com 5,77. Se a resposta alta significasse descrença, esperaríamos o contrário. N = 121, escala de 0 a 10.
Leitura a validar. Duas explicações são compatíveis com esses números e nenhuma pode ser confirmada com os dados coletados. Parte da turma pode ter lido a escala em sentido invertido e marcado 10 querendo dizer que a IA não é passageira. Ou existe de fato um grupo que usa IA com intensidade e ainda assim a considera passageira. Em uma próxima rodada, o enunciado precisa ser reescrito para eliminar a ambiguidade.
Diagnóstico: qual é o seu estágio de maturidade em IA
As 12 afirmações abaixo reorganizam o questionário em quatro dimensões. Responda pensando na sua semana típica, não na melhor semana do ano. O resultado aponta a dimensão mais frágil e diz o que fazer a partir dela. Suas respostas ficam apenas no seu navegador.
Diagnóstico de maturidade em IA
0 de 12 respondidas
Por onde começar
Três leituras se sustentam nos dados desta turma, e cada uma aponta uma ação diferente.
A dor é consenso, então ela não diferencia ninguém. Com 61,2% da sala marcando 7 ou mais nas três dimensões de dor ao mesmo tempo, usar a sobrecarga como argumento de venda interna não move a fila. O que move é mostrar o ganho em uma tarefa nomeada, com antes e depois medidos.
A adoção acompanha postura, não volume. Com r de +0,567 para busca de inovação e +0,053 para tempo operacional, um programa de adoção que começa pela ferramenta tende a falhar. Comece pelas pessoas que já testam caminho não convencional e deixe que elas demonstrem o resultado para o resto da equipe.
Ganho de tempo não vira folga sozinho. Quarenta e dois respondentes combinam uso alto de IA com dor alta. Se a equipe não decidir explicitamente o que fazer com a hora economizada, ela será reabsorvida por mais trabalho, e o projeto de IA será avaliado como fracasso mesmo tendo funcionado.
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Sobre os dados. Levantamento aplicado por André Medeiros, sócio-fundador da Advoco Brasil, durante a Imersão Contábil 2026, em 17 de setembro de 2026. Base de 121 respostas anônimas, 11 questões fechadas em escala de 0 a 10 e uma questão aberta. Todas as médias, correlações e recortes citados foram calculados a partir dos microdados do levantamento. As correlações indicam associação, não causalidade. A amostra é autosselecionada e não representa a população de contadores do país.
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